sexta-feira, 17 de julho de 2015

Uma nova chance ... cap 08


Eu passei os últimos seis meses de minha vida fazendo fisioterapia para conseguir voltar a andar com as minhas próprias pernas. Ainda não voltei, mas sinto que a cada dia estou mais perto disso do que antes.

Além de frequentar o divã da senhora McLeane duas vezes por semana, ela estava tentando fazer com que eu superasse os traumas daquela fatídica noite. Eu confesso que estava melhor, por que no final das contas eu tentei não deixar que aquilo me abalasse demais, e não me tornasse em uma pessoa cheia de complexos e estas coisas. Porém, algumas sequelas ficaram é claro, eu sei que aos poucos eu vou superá-las. Preciso superá-las.

O meu pai achou que estavam demorando muito para conseguirem o resultado esperado com a fisioterapia, já que a minha lesão tinha sido "superficial", e eles garantiram que em breve eu voltaria a andar.

Eu resolvi não parar com a minha vida, e assim que recebi alta hospitalar depois de três semanas e fiquei mais quatro semanas de repouso - que fui obrigada a fazer pela minha mãe - eu decidi continuar a frequentar as aulas, sendo que eu sempre ia sozinha e a agora minha mãe estava me levando e me buscando na faculdade, afinal agora eu não tinha mais a mesma mobilidade de antes. Estava em uma cadeira de rodas. Mas graças a Deus eu tinha ótimos amigos na faculdade que me ajudavam a entrar e sair do carro, além de me ajudarem nas dependências da faculdade.

Por falar na minha mãe, logo ela teria que parar de me levar e me buscar na faculdade, afinal ela esta no oitavo mês de gestação, e logo o meu irmãozinho Michael, irá nascer e ela não poderá mais me levar todos os dias a aula, mas a Corine já tinha se prontificado a me buscar e me levar todos os dias se assim eu precisasse.

A minha mãe tinha levantado a possibilidade de nos mudarmos de Hoboken devido ao que tinha acontecido, mas eu achei desnecessário e sinceramente, acho que saindo daqui ou não, se tivesse de acontecer teria acontecido em qualquer outro lugar.

Eu aprendi com este acontecido que não podemos confiar em um sorriso bonito, não podemos confiar em um rostinho bonito, por que nem sempre ele e tão bonito por dentro, como e por fora.

Aprendi que sou mais forte do que eu achava que era, que eu posso encarar muita coisa de frente sob pressão, e mesmo assim me sair bem. Eu tenho o meu instinto de sobrevivência, que grita muito mais forte dentro de mim agora.

Bem, quando o telefone foi instalado lá em casa a minha mãe disse que iria contar a tia Berne o que tinha acontecido, eu disse que tudo bem, mas pedi que ela pedisse a ela que mantivesse sigilo, provavelmente ela não contaria nada, mas mesmo assim, eu não queria que esta história caísse nos ouvidos do Peter, não queria que ele acabasse se preocupando comigo de alguma forma, a única coisa que eu queria e que ele se concentrasse no seu sonho, era o melhor que ele poderia fazer agora.


Quando o Michael nasceu no início de abril de 2004, eu ainda estava na cadeira de rodas, infelizmente. Eu sentia a cada dia os meus músculos atrofiarem um pouco mais, mesmo com os exercícios contínuos e as idas ao fisioterapeuta. O meu pai estava ficando impaciente e  decidiu me levar em um outro fisioterapeuta para tomar conta de mim, ele queria muito me ver andando, afinal, daqui a quatro meses faria um ano que eu estava presa a esta cadeira. Eu mesmo inconformada, estava meio que aceitando a minha nova condição, aceitando que eu nunca mais iria voltar a andar.



- Eu não gosto quando você pensa assim filha. - ele estava colocando a minha cadeira de rodas ao lado da sua cadeira no consultório.



- O senhor acha mesmo que eu vou voltar a andar ?



- Eu tenho certeza e não quero que você pense assim novamente, esta me entendendo?



- Sim. Será que a mamãe esta bem com o Michael?



- Está sim, eu acabei de ligar para ela e esta tudo bem. Por que esta preocupada?



- Não sei. - sorri. - É estranho ver a mamãe cuidando dele. Não imaginei que ela teria mais um bebê.



- Queria ser filha única?



- Não é isso, sei lá, é o costume de ser filha única, mas no final das contas não mudou nada, me sinto como mãe dele também! -sorrimos.



- Permanecemos te amando! - me deu um beijo na testa.



- Crystal Fernandes?



- Eu.


Olhei para a voz que tinha entoado o meu nome e me deparei com um jovem rapaz, ele era moreno, parecia ser latino, ao menos não tinha cara de ser americano. Ele tinha um sorriso bonito e olhos penetrantes, mas eu aprendi a não confiar nestes sorrisos logo de cara.



- Posso? - ele apontou para a cadeira.



- Pode deixar, eu mesmo levo a minha filha. - papai se levantou rapidamente do banco empurrando a minha cadeira.



- Sim senhor. - ele sorriu olhando para o meu pai.



- É você quem vai cuidar da minha filha? - perguntou enquanto entrávamos no consultório.



- Sim senhor!



- Você não e muito novo?



- Sou, mas garanto ao senhor que sou muito responsável e assumi um compromisso com a sua filha. Já dei uma olhada no prontuário dela e com os novos métodos, sei que não demorarei muito para fazê-la andar novamente.



- O outro medico disse a mesma coisa.



- Mas eu me garanto senhor, tive um bom estudo e me empenhei muito, não que o outro medico não tenha feito o mesmo, mas eu vou dar tudo de mim para cuidar de sua filha.



- Pai, chega. - disse discretamente, o fazendo sorrir.



- Esta tudo bem Crystal, ele esta certo em retirar as suas dúvidas. A propósito, o meu nome e Rafael, Rafael Garcia.



- Não e americano?



- Não senhor, sou cubano, mas estou aqui a dois anos fazendo minha especialização, me formei bem cedo.



- Bem, o que importa é, quando podemos começar? - ele me olhou e sorriu.



- Agora mesmo, vamos começar hoje. Por favor.



Ele empurrou a minha cadeira até uma maca e se abaixou colocando uma de suas mãos por baixo dos meus joelhos e a outra em minhas costas, logo os meus braços envolveram o seu pescoço e ele me colocou sob a maca onde eu me deitei.

A consulta ocorreu tranquila, ele foi super atencioso, fez massagens e todos os exercícios para fortalecer os meus músculos novamente, ele fez exercícios que em quase seis meses de fisioterapia eu ainda não tinha feito. Eu não sei, mas senti que talvez com ele teríamos algum progresso.

Passei o meu aniversario de 18 na cadeira de rodas, mas finalmente com um motivo para comemorar, afinal o doutor Rafael, esta conseguindo maravilhosos progressos comigo, eu atá já consigo sentir o toque em minha pele e ele me disse que daí por diante e só melhoras.



[5 meses depois...]



Eu tinha consulta 3 veze por semana com o doutor Rafael, estávamos tendo muitos progressos e o melhor de tudo, tínhamos nos tornado grandes amigos.

Ele ficou muito surpreso quando descobriu que eu era Brasileira, pois disse que tinha alguns familiares por lá e que geralmente ia de duas a três vezes por ano até o Brasil fazer visitas.

Descobri que ele tinha 21 anos e em breve faria 22, teve a sorte de ser um dos melhores alunos da classe de fisioterapia, sendo um dos primeiros da classe.

Eu contei a ele um pouco sobre mim, incluindo o motivo de estar em uma cadeira de rodas hoje, ele ficou bastante transtornado de início, disse que isso era revoltante e que ninguém deveria passar isso, mas que enfim, era a vida e estávamos todos sujeitos a passar por algo um dia. Ele me felicitou por querer me tornar uma obstetriz, afinal era uma linda profissão ter que trazer pessoas a este mundo. Enfim, eu criei um elo muito próximo a ele e as vezes ficávamos conversando por um bom tempo após as consultas, até mesmo durante elas.

Hoje a fisioterapia seria na água, ele disse que era para fortalecer ainda mais a minha musculatura. O meu pai tinha me deixado no consultório sob os cuidados de uma enfermeira que me ajudou na troca de roupa e após isso ele me levou até a piscina aquecida da clínica.

Confesso que senti o meu rosto aquecer, quando ele retirou o roupão ficando apenas de bermuda aquática. Ele tinha um corpo lindo, bem atlético e perfeitamente moreno, seu corpo me fazia lembrar de outro corpo moreno, mas que infelizmente estava a quilômetros de distância de mim.

Estávamos na água, ele me segurava por baixo dos braços me fazendo boiar e sentir a água no meu corpo.


- Esta confortável assim?



- Muito, esta delicioso. - fechei os olhos sentindo a calmaria do local, afinal só tinha nós dois.



- Apenas sinta a água passar pelas suas pernas, consegue sentir?



- Sim, perfeitamente. Muito obrigada doutor, o senhor definitivamente devolveu as minhas esperanças.



- Imagina Cris, ela já estava ai, só faltava um empurrão para aflorar novamente a sua vontade de voltar a andar.



- Muito obrigada. - olhei para ele encontrando os seus olhos que estavam sobre mim.



- Só quero te ver bem e feliz.



Segurei em sua mão com as minhas duas e com a ajuda do meu tronco me virei para ele fazendo o possível para apoiar os pés no fundo da piscina, ele segurou as minhas duas mãos e sorriu olhando para mim, em sua frente.



- Eu consegui sentir os meus pés esta madrugada e estou conseguindo firmá-los no chão, finalmente. - senti os meus olhos arderem. - Finalmente, depois de mais de um ano, eu estou vendo progressos e isso é graças a você!



- Não, é graças a você e sua força de vontade.



- Ainda não consigo andar, obviamente...



- Mas a água esta te sustentando de pé. Consegue ficar sozinha?



- Acho que não.



- Tenta! - ele ameaçou soltar a minha mão, mas segurei firme.



- Não! - estava assustada.



- Tenta. - me incentivou.



Ele soltou calmamente a sua mão da minha e eu consegui firmar os meus pés no chão, mesmo sentindo os meus joelhos ainda muito fracos, quando menos esperei eles cederam me fazendo desequilibrar, porém, ele foi muito mais rápido e segurou firme bem próximo ao seu corpo impedindo que eu afundasse na piscina. Os nossos olhos se cruzaram e eu senti algo diferente em meu peito, na realidade eu já conhecia, afinal tinha sentido uma vez.

Respirei fundo, sentindo a sua proximidade, porém ele limpou a garganta abriu um sorriso.



- Esta tudo bem?



- Sim. esta sim, obrigada.



- De nada, estou aqui para isso. Quer continuar ou quer sair?



- Eu prefiro sair, estou com um pouco de frio. - menti, era melhor assim.



Já fazia alguns meses que a sua total atenção sobre mim, carinho, respeito e paciência estavam mexendo comigo de forma diferente e eu não queria me iludir, afinal, um médico jamais se envolveria com uma paciente.


Após a sessão de fisioterapia de hoje, que posso dizer que foi um tanto quanto interessante. O meu pai veio me buscar acompanhado da mamãe e Michael, eles disseram que iríamos fazer um passeio no centro de Hoboken.

Ele empurrava a minha cadeira enquanto dávamos um passeio no parque, até que decidimos parar um pouco. Eles estavam abraçados olhando ao redor, enquanto eu estava com o Michael no colo já com quase seis meses, que se mexia devagar em meu colo, me dando esperança e ainda mais força de vontade de seguir em frente e lutar pela minha completa melhora depois de um ano e meio após aquela.

"Eu ainda estava com o Michael no colo, porém não estava mais no mesmo parque, era como um jardim colorido, com muitas flores pelo lugar, ele trazia paz e sossego. Olhei para os meus braços e sorri ao ver que  Michael não era mais um bebê e sim um lindo garotinho de mais ou menos 5 anos de idade, ele corria na minha frente enquanto eu ainda o seguia com a cadeira. Porém, ela ficou emperrada em algo, eu não tinha mais como me locomover, olhei aflita para ele que sorria da forma mais carinhosa possível.


- Vem Cris, levanta!



- Eu não posso Michael, ainda estou presa nesta cadeira.



- Pode sim, você não precisa mais desta cadeira feia. - ele se aproximou e esticou a sua mãozinha para mim, a segurei. - Levanta!


 Eu sorri e coloquei os meus pés no chão e em seguida, colocando toda a minha força nos pés eu me levantei, ele mais uma vez sorriu para mim me puxando para que eu caminhasse com ele pelo lindo e florido parque. Olhei mais a diante e o meu sorriso que já era grande, ficou maior ainda quando vi a imagem do Peter caminhando em nossa direção, ele sorria da forma mais linda que eu poderia me lembrar e os seus olhos estavam colados nos meus.

Eu sorri sem saber muito bem como reagir, porém não precisei fazer nenhum movimento, pois o seu abraço foi a única coisa que consegui sentir em seguida."

Acordei respirando fundo e sentindo o meu coração acelerado, era mais ou menos três da manhã e eu estava no meu quarto. Já fazia muito tempo que não sonhava com ele, era uma linda e maravilhosa lembrança, sonhar que estava andando, que estava o abraçando, foi a melhor coisa que poderia ter me acontecido naquela madrugada.

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