
[Anos depois...]
Parte Peter
Haviam se passado quase onze anos desde que eu sai do Hawaii. Desde que eu deixei o meu lugar, a minha família, os meus amigos, enfim, as melhores pessoas que já convivi.
Eu sinto falta de lá, e muito, mas lá agora para mim é só para visitar, no máximo passar alguns dias.
Confesso que quando eu voltei pela primeira vez ao Hawaii, depois de ver toda a minha família eu queria muito ver a Cris. Eu sentia falta dela e quando eu fui embora eu pensei muito nela, em nós dois, ainda mais depois do que aconteceu entre nós dois naquela tarde. Foi tão bom, tão marcante que se eu fechar os olhos consigo sentir o seu cheiro, até o seu gosto, mas fiquei decepcionado quando soube que ela tinha ido embora com a família, já que segundo o meu pai, o senhor Stuwart tinha sido promovido.
Queria que ela visse onde cheguei, se bem que eu sei que independente de onde ela esteja morando, ela deve saber algo sobre mim, afinal, todos sabem.
Estou da metade para o final da minha segunda turnê mundial, ela vai acabar em breve no México e eu estou louco para voltar para casa de vez, a única coisa que eu quero agora é descansar.
Os últimos dez anos da minha vida foram tensos e intensos. Eu passei por muita coisa, fiz muita coisa boas, como ruins, mas eu lutei muito e trabalhei muito para chegar onde estou. Passei noites em claro escrevendo, compondo, tocando, enfim, foram dias de muito trabalho e muita luta.
As vezes eu me pegava pensando em casa diante das dificuldades, e não posso negar que a vontade de desistir de tudo e voltar para o Hawaii gritava, mas eu mandava ela calar a boca e continuava a correr atrás do meu sonho. Ele vinha em primeiro lugar.
Toquei em muito barzinho, levei muito não na cara e foram poucas as respostas positivas que foram aproveitadas da melhor forma possível. Decepções fazem parte da vida de um artista, mas você só deixa ela te domar se for muito fraco. E como eu não sou fraco, eu que passei por cima delas.
Depois de muita luta e batalha, eu consegui algumas colaborações e foi aí que eu vi a minha vida começar a mudar. Novas portas começaram a se abrir, novas oportunidades, os primeiros prêmios, as primeiras músicas nas paradas de sucesso e depois de muito correr atrás, enfim, eu cheguei. Ainda não e onde eu quero, afinal, eu sou perfeccionista, tanto na minha carreira, como na minha vida.
Enfim, entre todas as mudanças que a minha vida teve, acho que ela esta tendo uma das maiores agora.
Há quatro anos atrás eu conheci a Pâmela, em um ensaio fotográfico para a GQ, ela não fotografou comigo, mas estava por lá para fazer um ensaio para uma revista afiliada e acabamos nos conhecendo, nos envolvemos e estamos juntos ate hoje.
Eu gosto muito dela, na realidade é um pouco mais do que gostar. Somos muito felizes, não vou falar que não brigamos, nós nos desentendemos as vezes, mas e coisa de casal. E claro, mesmo gostando muito dela, as vezes eu acabo dando uma olhada para a grama do vizinho, afinal a do lado, é sempre mais verde. Mas não é nada que chegue a abalar o nosso relacionamento.
Tanto não abala, que eu fiquei sabendo da feliz notícia de que eu serei pai em breve, ela esta grávida e eu não poderia estar mais feliz.
A minha carreira esta maravilhosa, a minha vida pessoal estava incrível e agora eu seria pai em alguns messes.
- Amor, você viu a minha pulseira de prata? - eu pergunto.
- Aquela que é de mulher? - sorriu.
- É aquela mesma que você não gosta!
- Não gosto por que você não me conta quem te deu.
- Já disse que ganhei da minha mãe.
- E eu já disse que é mentira, por que eu perguntei à ela a uns três anos atrás. - respiro fundo.
- Você o quê?
- Eu já tinha perguntado à ela. E eu sei que foi de uma mulher chamada Crystal.
- Pâmela, eu...
- Relaxa, não vou mais te pressionar em relação à esta pulseira. Ela esta na sua gaveta, estava jogada...
- Estava no criado mudo.
- Que seja meu bem.- fui até o closet.
Abri a minha gaveta e a primeira coisa que vi foi o seu brilho, ela era perfeita, de prata toda trabalhada. Ela era linda, mas o que era ainda mais lindo, era o que ela representava para mim.
"- Vou sentir a sua falta pequena.
- Também vou sentir a sua. Vou sentir muito, muito, muito, Peter. - beijou o meu rosto e os meus lábios quando a coloquei no chão novamente.
- Assim que der, nos veremos novamente, eu prometo.
- Toma, fica com isso. - retirou a sua pulseira preferida do pulso e colocou no meu. - Tenta não se esquecer de mim?
- Eu não vou Cris.
Nos beijamos novamente de forma intensa com sabor de despedida entre lágrimas. "
Terminei de colocar a pulseira e sorri, era uma linda lembrança que eu tinha dela, desde este dia nunca mais nos vimos novamente, não sei como ela esta, onde ela esta, com quem ela esta, se esta bem ou não, casada ou não, namorando ou não. Se seguiu em frente e teve uma vida linda como ela sonhava em ter, ou se a vida não foi tão generosa com ela. Creio eu e espero que esta parte não tenha acontecido. A Crystal não merece sofrer, de forma alguma.
Por muitas vezes me peguei lembrando dela, do seu sorriso, do seu abraço, da sua companhia, de como éramos amigos, enfim, de como nos amamos no nosso último dia juntos. Daria qualquer coisa para reviver aquela tarde.
- Você vai comigo na obstetra mais tarde? - ela parou na porta do closet.
- Preciso ir mesmo?
- Seria legal você acompanhar o crescimento do seu filho ou filha. É a minha primeira consulta.
-Ta bom, eu vou ver se consigo, estamos correndo um pouco com os últimos shows da turnê. Sabe que viajo em duas semanas para o México não é?
- Eu sei, e é justamente por isso que queria que você fosse.
- Vou tentar amor, eu juro! - me aproximei dela lhe dando um selinho - Vai ser que horas?
- Às três e meia da tarde!
- Tudo bem amor, se cuida. - lhe dei um selinho demorado - Preciso ir, ainda vou me encontrar com o Mark.
- Tudo bem, vai lá. Vou pedir para fazer um jantar especial para nós esta noite.
- Isso e ótimo amor, mas você sabe como esta corrido por lá. Talvez eu tenha que ir na consulta e voltar direto para o estúdio. -terminei de colocar o meu relógio e peguei a minha carteira. - Tchau garotão o papai te ama. - acariciei a sua barriga e ela sorriu.
- Te amo!
- Também. - lhe dei mais um selinho e saí de casa indo para o estúdio.
Estávamos finalizando uma música, uma colaboração com o meu amigo e produtor Mark Ronsosn, pretendíamos lançá-la antes do final do ano. Esta música foi uma das que mais deu trabalho, afinal ela foi feita um pouquinho em cada estado, as vezes era até em cada pais. Mas ela esta ficando muito boa e acho que no fim todos vão adorar.
Cheguei no estúdio e só estava Phil, o Mark, o Ari, e o Ryan, estavam todos em um papo animado, cheio de gargalhadas.
- Também quero rir, qual é a piada?
- Não é nada de mais, estamos ajudando o Ari a escolher o lugar da sua lua de mel. - Phil sorriu novamente.
- Boa coisa não é! - sorri. - O casamento não será só no ano que vem?
- Eles estão a fim de me perturbar Bruno e não entra na deles, por favor! - sorrimos.
- Você que não aguenta uma brincadeira, sempre fica irritado.-sorri ao me sentar.
- Bem, vamos parar de brincadeira, porque temos que trabalhar.
- Esta música tem que sair este ano ainda. - Mark sorriu se levantando.
- Ela vai, nem que seja dia 31 de Dezembro à meia noite e cinquenta e nove minutos! - sorrimos.
- E aí, como vai o herdeiro? - pegunta enquanto sentava-se ao seu lado, na ilha de edição.
- Bem. À Pam tem reclamado um pouco de náuseas e enjoos matinais, mas disse que na próxima consulta com a obstetra dela, ela pedirá um remédio mais forte.
- Esta animado?
- Sim. Quero muito ver a carinha do meu filho.
- Ou filha.
- Filho, não quero ter que matar um tão cedo. Na minha filha pau nenhum encosta.
- Mas você encosta na filha dos outros!
- Mas aí meu caro, não é minha culpa, - rimos.
- Se o Bruno tiver uma menina ele vai colocar um cinto de castidade nela. - Ryan se pronunciou do canto da sala.
- Você pode ter certeza disso!
- Quando vai descobrir o sexo? - Ari me olhou curioso.
- Ainda não sei, hoje eu vou com ela na consulta, mas acho que ainda esta cedo.
- Ainda é muito novinho para saber, ela nem tem barriga! - Phil diz tomando um gole de seu inseparável copo de café. - Vocês são doentes.
Olhei mais uma vez para o Ryan no canto da sala tomando o seu açaí tranquilamente e sorri. Sempre que via ele tomando açaí, me lembrava dela, era engraçado, por que isso estava acontecendo com mais frequência ultimamente. Teve uma época que eu chegava a sonhar com ela, mas depois de um tempo, principalmente depois que conheci a Pâmela, deu uma pausa e eu quase não lembrava dela com tanta frequência, mas agora desde que soubemos da gestação, eu tenho pensado mais nela. O porque, eu não sei.
O dia passou tão rápido que quase não deu para sentir direito, quando percebi já era exatamente três da tarde e eu precisava ir na consulta com a Pam.
Me despedi dos caras e disse que tentaria voltar até as cinco, já que ainda tínhamos muitas coisas para fazer e como previ, hoje seria um dia em que passaríamos a madrugada enfiados no estúdio.
Entrei no carro, liguei o rádio em uma estação de músicas variadas e comecei a seguir o meu caminho tranquilamente até a clínica.
Parte Crystal
Exatamente oito anos haviam se passado desde que tudo aconteceu. Eu acabei de completar 27 anos, e sinceramente e estranhamente, eu só tenho a agradecer pela segunda chance que tive depois daquele sequestro, estupro e tentativa de assassinato.
Graças a ele eu sinto que renasci, eu fiquei mais focada, fiquei mais destemida e confiante. Eu corri atrás dos meus sonhos e das minhas realizações pessoais, incluindo o meu sonho de ser obstetriz. Me formei na área após seis anos de faculdade, especialização e residência, foram muitas noites sem dormir, mas eu segui firme no meu propósito, tendo sempre todo o apoio da minha família e claro, do meu maravilhoso marido.
Sim, eu me casei com o Rafael, ele é um marido maravilhoso, é carinhoso, compreensivo, companheiro, enfim, acho que nem todos os adjetivos são suficientes para descrevê-lo. Claro, que nós temos os nossos desentendimentos, nossos "arranca-rabos", mas nada que um dia, ou dois não resolva. Sim, tudo isso, geralmente não nós resolvemos no mesmo dia, mas até por falta de tempo dos dois, mas sabemos que estamos muito bem juntos. Ele e um homem maravilhoso, nos amamos e no fim ele é o meu herói, afinal de contas, depois de um ano cuidando de mim, eu consegui sair da careira de rodas, e hoje tenho a minha total mobilidade de volta.
Ele se estimulou com os meus estudos e fez mais uma faculdade com especialização, hoje tem o seu próprio consultório, mas agora, ele era cirurgião plástico. Conclusão, eu nunca ficarei velha. Ficarei plastificada.
Eu também consegui o meu próprio consultório em uma clínica respeitada em Los Angeles, para onde tivemos que nos mudar, já que era onde se concentrava a maioria dos pacientes em potencial - mais endinheirados - Rafael é bem ambicioso, e mesmo tendo muito e morando em uma casa confortável em uma das áreas mais nobres de Los Angeles, ele ainda quer mais, muito mais. Vai entender.
Eu divido o consultório em uma clínica maravilhosa com uma pediatra excelente, ela se chama Liz, Lisandra Motta, ela é uma bela argentina que veio fazer a sua especialização em Harvard e acabou se apaixonando pela América e ficando por aqui mesmo. Somos muito amiga e adoramos nos encontrar, as vezes na minha casa, outra na sua. Ela também tem 27 anos, é casada - amigada - com o Mathew Doney, um advogado muito renomado e bem sucedido. Conclusão, ela nem precisaria ser pediatra, mas é como ela diz e eu acredito: "Eu não trabalho, eu dou, e recebo amor"
Rafael, e eu, estamos casados a seis anos, e ate hoje não tivemos filhos, mas a culpa não e por falta de tempo, afinal ,temos uma vida sexual muito ativa, a culpa e pelo fato de eu ter permanecido estéril, este quadro não se reverteu, e eu permaneci sem a possibilidade, e o direito de gerar uma vida, e isso me deu mais garra e força de vontade para me empenhar em ser uma grande obstetriz, e ter a dadiva de ajudar a colocar grandes homens e mulheres no mundo.
- Amor, estou indo para a clínica. - ele saiu do closet com o seu terno italiano, completamente engravatado.
- Também já estou indo amor. Hoje tenho uma paciente nova, será a sua primeira consulta.
- Que bom meu anjo. Quando vamos novamente no orfanato?
- Acho que semana que vem. - peguei a minha bolsa terminando de olhar como os meus rebeldes cachos estavam esta manhã. E estavam incrivelmente comportados.
- Estou ansioso para saber o resultado do pedido de adoção.
- Eu também, você não sabe como. - descíamos as escadas da nossa confortável, grande e luxuosa casa quando sentimos um delicioso cheirinho de café.
- A assistente social vem amanha não e?
- Você me pegou agora amor, mas eu vou ligar confirmando e te aviso.
- Sem problemas. Bom dia, Ana!
- Bom dia, senhores!
- Bom dia, Ana. - me sentei, colocando minha mala na cadeira ao lado.
Analena, é uma porto-riquenha, uma das moças que trabalhava conosco a um ano e meio mais ou menos, quando nos firmamos com os nossos consultórios e vimos que eu sozinha não tinha mais como dar conta de uma casa tão grande como esta e ainda atender na clínica.
Rafael levantou a hipótese de que eu parasse de clinicar, já que ele sozinho conseguia manter muito bem à casa, mas ser obstetriz é o meu sonho e a primeira coisa que disse foi: não. Eu lutei muito para chegar até aqui, eu chorei muitas noites seguidas de dor durante a minha recuperação, eu batalhei, eu passei noites acordada estudando e não seria agora que eu iria deixar tudo isso para trás, para cuidar de casa.
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