Beijei o meu marido na porta da garagem de casa e logo em seguida ele entrou no seu luxuoso Bentley, e eu entrei no meu Malibu, bem mais simples, mas tão bonito quanto, aos meus olhos. Ao contrário dele, eu não gostava de ficar insinuando quanto eu tinha na minha conta bancária.
Ele pediu que eu tomasse cuidado, assim como todos os dias quando nos despedíamos na porta de casa. Ele, assim como eu, sentia receio do que poderia acontecer comigo no período que estivesse fora, e sempre exigia que eu lhe mandasse um e-mail pessoal, ou uma mensagem de texto, enfim, qualquer coisa assim que eu chegasse na clínica para ele saber que estava tudo bem. Ele é muito cuidadoso.
Enquanto me dirigia para a clínica eu pensava na minha mãe, no Stew e no Michael, que estavam morando no Texas agora. Depois que sai de Hoboken com o Rafa, após o nosso casamento, eles não passaram mais de seis meses por lá. E eu não os culpo.
- Alô! - atendi a ligação no viva voz.
- Filha, bom dia meu amor.
- Papai, estava lembrando agora mesmo de vocês. Como estão a mamãe, o senhor, e o Michael?
-Estamos bem meu amor. Estávamos querendo que você, e o seu marido viessem passar o 04 de Julho conosco, o quê acha?
- Eu adoraria. Vou ver com o Rafa se não tem problema para ele.
- Tudo bem meu amor. Sua mãe está te mandando um beijo.
- Manda outro, diga a ela que eu a amo.
- Ela disse que te ama, meu amor.
- Eu te amo filha. - ouvi a sua voz um pouco mais longe, mas mesmo assim não deixei de sorrir.
- O Michael está na escola, certo?
- Está sim!
- Mande beijos para ele também. Preciso ir papai, vou estacionar na clínica.
- Mando sim meu anjo. Bom trabalho minha filha.
- Obrigada papai!
Após estacionar o carro, peguei as minhas bolsa e saí o mais rápido possível do carro. Depois do que aconteceu a anos atrás, eu criei alguns traumas, como não ficar no carro depois de estacionar por mais de 30 segundos, não falar ou sorrir para estranhos, e o mais importante, não confiar em um sorriso bonito.
Entrei na clínica, cumprimentando as moças na recepção, autorizando a entrada da primeira paciente em quinze minutos e segui direto para o meu consultório.
- Bom dia! - parou na minha porta assim que entrei na sala.
- Liz! Bom dia, entra!
- Não vou ficar muito tempo, tenho uma paciente em dez minutos.
- Eu em quinze. Tenho alguns prontuários para olhar, e acho que uma das minhas pacientas dará a luz está semana ainda.
- Parto normal?
- Sim. Estou quase me acostumando a ver uma melancia sair de onde cabe no máximo um limão. - sorrimos. - Como vai a Alícia?
- Esta ótima, a deixei na creche antes de vir.
- Sua filha é um encanto.
- Fala a verdade, você quer usá-la como cobaia! - sorrimos.
- Tive o meu irmãozinho para isso, mas confesso que e sempre bem-vindo.
- Que pena do Michael!
- Não fala assim, eu cuidei muito bem dele.
- Se você cuidou tão bem dele, como cuida da minha filha quando está com ela, realmente, você cuidou muito bem dele.
- Obrigada. - a olhei com carinho - Estou ansiosa demais com a resposta da conselheira.
- Você sera contemplada amiga.
- Tomara. Eu seria abençoada no caso. - sorri olhando o prontuário da próxima paciente.
- Onde vai passar o feriado?
- O papai me chamou, mas não sei se o Rafa vai querer ir, acho que ele tem um paciente para o dia 03 e provavelmente estará muito cansado para dirigir até o Texas.
- E por que não vai sozinha?
- Não seria a mesma coisa.
- Eu acho que você vive muito a merce dele. - a encarei. Já tínhamos falado sobre isso. - Não esta mais aqui quem falou. - elevou os braços em rendição.
- Eu sou a esposa dele e o meu dever estar onde ele esteja. E ele é muito ciumento.
- Você tem pensamentos muito ultrapassados, mas te respeito. E está de ciúmes é sempre perigoso!
- Obrigada. - me levantei colocando a minha bolsa pessoal em um dos armários do consultório. - Eu sei o quê é perigoso, mas eu não acho nada fora do normal. Ele tem tanto medo, quanto eu.
- Eu sei.
- Bom, e você, onde vai passar o feriado?
- Vamos passar em casa mesmo com a minha sogra. Nem te contei a novidade.
- Pois conte. - sorri me sentando.
- Vamos ao show do seu amigo no dia 02 em Boston.
- Ele não é mais o meu amigo. Fomos amigos um dia, mas hoje ele nem deve saber que existo.
- Por que você não vai vê-lo? Sei lá, talvez ele ainda se lembre de você!
- Não. Se o Peter se lembrasse de mim, eu saberia, acredite. -sorri.
- Por que você o chama de Peter?
- Este é o nome dele.
- Eu sei, mas todos o conhecem como Bruno.
- Mas eu o conheço como Peter.
- Você nunca pensou nele novamente? - merda, ela pegou no meu ponto fraco.
- É claro que sim, seria ótimo vê-lo novamente. Mas eu não acho que seria o ideal, não sei como está a vida dele agora, não sei nada sobre ele, só sei sobre o Bruno.
- É a mesma coisa, ele está namorado com uma mulher até então desconhecida. - a encarei. - Li em uma revista de fofoca está semana.
- E como você sabe se a mulher é desconhecida? Ele pode estar solteiro ou até se tornou gay! - nos encaramos e sorrimos- Gay não, eu duvido muito, na realidade, eu sei que não. - sorri ao me lembrar de uma determinada tarde há dez anos atrás.
- Meu Deus, de acordo com este sorriso, você já experimentou. - este era um segredo que só a minha mãe e o meu diário sabia.
- Não. Está louca, eramos apenas amigos e nada mais, nunca aconteceu nada. - disse apressadamente.
- Okey, eu vou fingir que acredito, mas o seu nervosismo entrega tudo.
- Liz, não começa com esta de tentar me decifrar, você é pediatra e não cartomante. - sorrimos, o telefone da minha mesa tocou.
- Doutora García. - eu usava o sobrenome do meu marido.
- Pois não!
- Desculpa interromper doutora Garcia, é a Sam, por acaso a doutora Motta está com a senhora?
-Sim, está me atrapalhando aqui. - sorri.
- É que o primeiro paciente dela já está pronto para se atendido.
- Vou expulsá-la da minha sala, obrigada Sam. - desligo. - Vai, já tem paciente a sua espera. - a encarei.
-Você fugiu de mim agora, mas não fugirá da próxima!
- Larga do meu anjo da guarda mulher! - sorrimos enquanto ela saia.
Falar sobre o Peter era muito complicado para mim, afinal, ele nunca saiu do meu coração, querendo ou não, eu tenho um pedacinho especial para ele no meu peito, eternamente. Eu segui a vida, sei que ele seguiu, mas tem coisas que o coração faz questão de não esquecer e ele foi uma delas que permanece aqui, bem guardadas.
Coloquei a mão no peito, onde eu ainda carregava todos os dias copiosamente, a corrente com o cristal azul que eu ganhei dele no dia do meu aniversário de 16 anos. Eu já tinha perdido esta corrente, já tinha mandado limpar, concertar, e quase surtei quando uma destas vezes o atendente da loja disse que ela tinha sumido enquanto estava concertando o fecho. Eu quase o esganei, mas por fim, ele a achou no final da gaveta. Eu tinha um ciúme mortal dela e até o meu marido já tinha notado isso. E ele sabia que eu tinha ganhado do Peter, ele só não sabia quem era ao certo o tal Peter.
Por falar no meu marido, me lembrei de que ainda não tinha lhe mandado mensagem alguma, ele já deveria estar preocupado, por isso decidi por um e-mail, já que o computador já estava ligado.
De: Crystal García
Data: 30 de junho de 2014 08:31
Para: Rafael García
Assunto: Desculpa
Me perdoa amor, eu cheguei há quase quinze minutos, mas acabei recebendo a visita matinal da Liz, e sabe como ela é. Eu cheguei bem, e espero que tenha chegado bem também.
Beijo, até mais tarde, eu te amo.
Amorosamente, Senhora García.
Enviei a mensagem, e antes de fazer qualquer coisa o telefone da minha mesa tocou e quando o atendi, fiquei sabendo que a minha primeira paciente já tinha chego. Liberei a sua entrada e através do seu nome já abri o seu prontuario.
Pelo canto do olho vi um alerta de mensagem e sabia que era dele, abri imediatamente.
De: Rafael García
Data: 30 de junho de 2014 08:32
Para: Crystal García
Assunto: Tudo bem.
Sei exatamente como e a senhora Lisandra Motta quando começa a falar parece um trem desgovernado. Não é implicância.
Fico satisfeito em saber que chegou bem meu amor. O meu trajeto também foi tranquilo. Nos falamos mais tarde.
Te amo demais minha vida.
Amorosamente, seu Senhor García.
Depois do almoço maravilhoso que tive com a Liz, era mais ou menos três da tarde quando estávamos voltando para o consultório.
A minha próxima paciente era as três e meia, olhei no relógio e faltava apenas quinze minutos para a consulta. Entrei no meu consultório e resolvi ligara para o conselho tutelar para confirmar o dia da última visita da concelheira. Isso não era um procedimento de praxe, geralmente os conselheiros apareciam de surpresa na casa, mas como tanto eu, como o meu marido trabalhávamos muito, acabávamos sendo avisados dos dias de visita. Mas eu tinha a noção de que quando eu recebesse a guarda provisoria de um bebe, eu teria que ficar ao menos uma parte do meu dia em casa. E eu queria que isso estivesse mais próximo do que eu queria imaginar.
Depois que eu fui visitá-la na semana em que ela chegou no orfanato, e soubemos que ela seria uma forte candidata para ser a nossa filha, eu fiquei simplesmente apaixonada por aquele bebezinho lindo, ela era tão perfeita parecia um anjinho.
Confesso que quando a vi pela primeira vez eu chorei, foi uma pena não poder pegá-la no colo, tive que me contentar em vê-la somente no colo da concelheira. Segundo eles não poderíamos tocar na criança, era uma forma de proteção, tanto para elas, como para nós, pois, se caso não recebêssemos a guarda por algum motivo, não ficaríamos tão arrasados pelo fato ter obtido contato com o "menor". E ainda mais por que tinha um casal na nossa frente.
- Diga, Sam.- atendi a ligação da recepção assim que finalizei a minha com o conselheiro tutelar.
- A sua próxima paciente, a Pâmela Muniz, já esta na recepção.
- Pode mandá-la entrar.
- Sim, senhora.
Dei uma olhada por alto na mesa, deixando tudo a mão, abri o arquivo feito na recepção sobre a paciente no computador onde seria fixado o seu prontuário e logo em seguida ouvi batidas na porta.
- Pode entrar. - sorri ao ver uma moça ainda mais sorridente do que eu adentrando a sala.
- Boa tarde doutora. - me levantei recebendo o seu cumprimento em um esticar de mão.
- Boa tarde Pâmela, tudo bem?
- Sim, e senhora?
- Ótima. Melhor ainda em saber que fui escolhida para acompanhar a sua gestação.
- A senhora foi muito bem recomendada, acredite. - sorriu amigavelmente.
- É ótimo saber disso. Já sabe de quanto tempo de gestação está?
- Ainda não, só tenho o resultado positivo. - ela vasculha em sua bolsa atrás de algo. - Aqui está, eu fiz o exame de sangue. - me entregou um oficio.
- Muito bem, sem problemas, faremos os nossos próprios exames em breve.
- Claro, desculpa.
- Não, imagina, não se desculpe, vamos ver. - abri o oficio em minhas mãos. - Bem Pâmela, aqui está marcando que o seu volume de HCG esta entre 10.000 a 100.000, e isso equivale a quase 3 meses de gestação ou mais, saberemos corretamente em breve com a ultrassonografia. Parabéns!
- Obrigada! - sorriu abertamente.
-Demorou um pouco para o primeiro pre-nata, porque?
-Eu estava em duvidas, na realidade não queria acreditar, então acabei meio que escondendo.
-Compreendo!-na realidade eu não compreendia, mas enfim. A encarei enquanto anotava o teor do exame em seu prontuario, não consegui deixar de notar que ela estava um pouco tensa.
- Algum problema? Duvidas?
- Não, - sorriu. - É que o meu noivo ficou de vir, mas até agora ele ainda não chegou.
- Tudo bem, se caso ele aparecer a Sam vai pedir que ele entre, fica tranquila.
- Obrigada!
- É realmente muito bom ter o pai do bebê na consulta, é estimulante, e faz muito bem tanto a mãe, como ao bebê.
- Ele é muito ocupado. É músico!
- Compreendo. Bem, podemos começar a fazer os primeiros exames presenciais?
- Claro.
- Se troque colocando aquele belíssimo roupão cedido pela clinica e deite naquela maca, por favor.-sorrimos.
Enquanto examinava a sua quase inexistente barriga e fazia as minhas anotações, eu tirava algumas de suas dúvidas sobre a gestação.
Eu sempre procurei ser o mais atenciosa possível com as minhas pacientes, deixá-las o mais confortável e tranquila possível, e eu sabia melhor do que ninguém, como atenção e respeito era essencial.
Ao final da consulta, com todas as anotações feitas, as medidas da sua barriga, pressão e glicose anotadas, eu finalizei a consulta.
- Na próxima consulta, que será daqui a um mês, faremos a primeira ultrassom, tudo bem?
- Tudo. - notei que ela parecia estar decepcionada.
- Olha Pâmela. - estiquei a minha mão e ela segurou. - Fica tranquila, na próxima consulta ele vem, eu sei que isso é tão importante para ele, quanto para você. Não é sempre que o tempo está ao nosso favor, talvez tenha acontecido algo. - disse e o seu celular tocou.
- É ele. - sorriu. A senhora se incomodaria se eu atendesse?
- É claro que não, fique a vontade. - soltei a sua mão e ela atendeu.
- Onde você está? - baixei o meu olhar, pegando a minha caneta, anotando os medicamento e vitaminas que ela iria começar a usar.
Retirei a minha atenção da sua conversa, não sou fofoqueira e não estava nem um pouco a fim de ouvir DR de terceiros.
Após a sua conversa no telefone, eu lhe entreguei a sua receita com os medicamentos que ela precisaria começar a tomar, ela se despediu, mas não sem antes perguntar da sua próxima consulta, e eu lhe disse que ela receberia uma ligação da clínica, no dia anterior a sua próxima visita. Nos despedimos amigavelmente ela foi embora em seguida, e eu me preparei para receber a próxima paciente, era a última antes que eu voltasse para a paz, e aconchego do meu lar.



