Agora foi a minha vez de juntar forças e coragem, por todos estes anos de enganação, e sustentar o seu olhar. Levantei-me do sofá também, e dei alguns passos em sua direção sem desviar o olhar do seu.
-Fala, por quê?-o encarei seriamente, mesmo ele estando de costas para mim.
-Eu já te disse, eu tive receio de falar a verdade para você, e
você desistir de continuar comigo!-apenas virou o rosto.
-Você passou anos comigo, e não me conhecia, não me conhece! -segurei em seu braço o virando para mim. Ate
parece que eu iria te deixar por causa disso, eu sentia algo muito forte por
você, não era amor, eu admito, mas era algo tão forte que me confundiu, e eu
confiei a minha vida a você, e o que você fez? Me enganou!
-Não fale de enganar, por que você me enganou muito mais Crystal!
Você me traiu!-apontou o dedo no meu rosto.
-Te trai sim!-admiti, sentindo orgulho de mim mesma, em assumir.
Eu te trai com o homem que eu sempre amei, com o homem que eu conheci, e amei
durante a minha adolescência...
-Isso e desculpa?
-Não, isso não e desculpa. Mas eu fui, e sou mulher suficiente
para assumir os meus erros!
-Você esta insinuando que eu não sou homem?-me encarou com expressão
de raiva.
-Não! Eu estou falando que você não assumiu o seu erro antes, que
me fez de idiota primeiro!
-Eu errei, assumo que errei! Mas eu te amava tanto! Eu... -ele novamente deu as costas para mim, como se tivesse algum receio em me olhar. Eu fui um fraco, deveria ter te contado a
verdade, mas tive medo de te perder, e no final das contas, eu te perdi!
-Eu sinto muito por isso, mas sim, você me perdeu!-ele sorriu.
-Como é a sua vida de nova pobre?-voltou a me encarar, mas agora com desdem.
-A sua defesa e o ataque?
-Não estou te atacando, apenas fiz uma pergunta!-elevou os braços
em rendição.
-Pois saiba que eu estou muito mais feliz! Tudo o que eu preciso
esta em uma casa de três quartos, sala, cozinha, e banheiro. La eu tenho o que
eu não tive aqui nesta casa de dez quartos, oito banheiros, três salas, enfim,
la eu tenho sinceridade, pois sei que todos me amam de verdade!
-Eu te amei!-apontou o dedo para o próprio peito.
-Será mesmo?
-Mas e claro que sim, e...
-Sem querer incomodar, mas e que a dona Rachel chegou!- a Ana
apareceu na sala interrompendo a nossa futura discussão, o fazendo respirar fundo.
-Graças a deus, estou ficando sufocada!-me sentei onde estava
anteriormente, e ele foi ate a porta da sala receber a conciliadora.
-Boa tarde doutora!
-Boa tarde doutor, desculpa a demora!
-Esta tudo bem! Como pode ver, ainda estamos vivos!
-Por enquanto! Boa tarde!- a cumprimentei!
-Isso e bom! Boa tarde Crystal! Acho que cheguei a tempo, já dava
para ouvir os gritos de vocês da porta!-sorriu tentando descontrair. Desculpa
moça, não tente.
-Podemos terminar logo com isso, esta casa me causa claustrofobia!
-Aqui? A claro, ela só se sente bem na sua casinha de três quartos
repletas de sorrisos felizes! Também tem passarinhos cantando na soleira da
janela, e ratinhos fazendo vestidos com as suas cortininhas florais?-ironizou.
-Olha aqui...
-Por favor, olhem os ânimos!-ela nos advertiu, e eu respirei
fundo. Filho da puta!
-Podemos terminar logo com isso?-eu a encarei seriamente.
-Claro! Primeiro eu queria saber o porquê, do casamento de vocês
não ter dado certo! Claro, alem do que eu acabei de presenciar!
-Estranhamente, não éramos assim, éramos felizes, e isso você pode
comprovar pelas varias fotos que temos!-ele a encarou.
-Então, o que aconteceu?
-Esta na cara, ou melhor, na barriga!-eu sorri irônico. E serio
isso?
-Ela esta grávida!-ela me olhou e sorriu.
-E eu sou estéril!
-Agora você assume isso com orgulho, só para se sair por sima, pelo
fato ter sido traído? A alguns minutos atrás, isso lhe traria vergonha! Não
seja ridículo Rafael, esta feio!
-Você o traiu?-ela me encarou.
-E ele mentiu para mim por oito anos, dizendo que eu era estéril,
quando na verdade, o estéril era ele!
-Definitivamente o casamento de vocês acabou! Um traiu, o outro
mentiu por anos, se um dia existiu amor, hoje não existe mais!-ela nos encarou,
e eu não disse absolutamente nada, e muito menos ele. Vamos começar logo o que
tem que ser feito! O Rafael me cedeu uma lista com os bens do casal, e
sinceramente, olhando a lista, e vendo o estado em que o casamento de vocês acabou, eu
não sei como dividir!
-Eu vou simplificar para você...
-Eu sei que a senhora não quer nada, mas mesmo tendo traído o seu
marido, ele simplesmente fez o mesmo, traindo a sua confiança por anos! Se
fosse levar ao pé da letra, nenhum dos dois merecia nada!-ele respirou fundo,
fechando os olhos.
-Comece logo com isso!-ele foi firme.
-Bom, vamos começar com o apartamento do casal em New York. Eu
mandei avaliar, e ele esta valendo quatrocentos mil dólares no momento. E o
Rafael abriu mão de todos os direitos sobre ele, então agora ele e seu
Crystal!-eu o encarei.
-Qual e o seu problema...
-Você sempre gostou mais dele, acho justo!-franzi a testa.
-Justo? Você vem falar de justiça?
-Por favor, Crystal, aceite, e não reclame!-ela tocou em meu braço.
-Eu não estou reclamando! Ele abriu mão do apartamento, para
depois jogar na minha cara, que se separou de mim, mas me deixo um teto, para
sair de bom moço! Afinal voce acabou de me chamar de nova pobre. Não e mesmo?
-E claro que não!-ele pareceu ofendido. E foi somente força de expressão!
-Eu não acredito mais em você! E força de expressão e o...
-Por favor Crystal, não se altere!-mais uma vez ela interviu.
-E Crystal, não se altere, olha o bebe!-ele foi sínico, e debochado novamente.
-Eu te odeio!
-Por favor Crystal, não se altere!-mais uma vez ela interviu.
-E Crystal, não se altere, olha o bebe!-ele foi sínico, e debochado novamente.
-Eu te odeio!
-Gente, por
favor! Parem de se comportar como crianças no presinho, brigando por tudo, e por nada! Vocês
são adultos, ajam como adultos!-nos encarou. Vamos continuar?-ninguém disse
nada, então ela continuou. Tem um Maceratti, um Bentley, e uma Ferrai Italia,
alem de um Malibu no nome do casal, certo?
-Eu comprei o meu carro!
-Aquela lata velha?
-E meu!-o encarei.
-Aquela lata velha?
-E meu!-o encarei.
-Já estava casada?
-Sim!-lamentei.
-Então ele entra na lista como bens do casal.
-Eu quero os meus carros! Ela pode ficar com o Malibu dela!
-Onde esta o carro?-ela me questionou.
-No mecânico, ele deu defeito esta manha!-disse, e ele sorriu.
-Definitivamente, eu não quero, só se for para jogar no ferro
velho. -mais um, deixem o meu carro. Bufei.
-Você concorda em ficar somente com o carro?
-Claro!
-Mas teremos que vender um para dividir o valor!
-O que?-ele a encarou.
-Sim, ela tem que ficar com algum credito pelos carros!
-Ele sempre amou mais estes carros do que qualquer coisa! Não ligo se...
-Mais um motivo! E eu sugiro que seja o Maceratti!
-Nossa, o Maceratti e lindo!-lamentei em ele ter que ser vendido.
-Por que não fica com ele?-ela me olha com um sorriso nos labios.
-Oi? Não era para vender?-ele a encarou.
-Sim, mas se ele tem um valor sentimental para ela...
-Ele tem para mim!
-Mas ela esta sem carro no momento, e eu vi que o Malibu e bem
velinho! Vamos combinar assim, os dois erraram, portanto não acho que nenhum
dos dois tem o direito de reclamar de nada!-ele bufou alto se jogando no encosto do sofa.
-Ela precisa e de uma mini van, o Maceratti não vai comportar três
cadeirinhas infantis!
-Não tem problema, ela vende o carro, e compra um ônibus se
quiser!-era impressão minha, ou esta mediadora esta ficando do meu lado?
-Vamos para as jóias!
-Eu abri mão!-ele se prontificou a falar.
-Menos da aliança do casal, alem de um anel de diamantes que você
deu a ela de noivado, correto?
-Sim!
-Segundo a minha avaliação, as três peças, estão por volta de 60
mil, e eu acho justo ser 30 para cada um!
-Estão de acordo?
-Sim! -ele respondeu sem muita vontade.
-E você Cris?
-Tanto faz, eu já posso ir embora?
-Ainda não!
-Legal!
Enfim, a conciliação continuou, e eu sai de la com um apartamento
em NY, um Maceratti, e quase cem mil em outras coisas, e uma pensão, uma forma
de indenização por todos os anos que eu fui "enganada". Ele não
gostou muito, e claro, mas ela nos explicou que seria um pouco mais, mas como
eu tinha sido infiel, ela foi reduzida em cinquenta por cento, dando assim
pouco mais de dez mil por mês. E bom? SIM! Mas isso nunca encheu os meus olhos,
e não e agora que vai encher, e eu deixei claro o tempo inteiro que eu não
queria, e não fazia questão de nada dele.
O Rafael ficou com os outros carro, a mansão em que morávamos, a clinica, e as peças de arte que compunham a decoração da casa.
O Rafael ficou com os outros carro, a mansão em que morávamos, a clinica, e as peças de arte que compunham a decoração da casa.
Estava tudo bom, tudo muito bem, mas a única coisa que mais me
interessa e outra.
-Eu quero saber sobre a Ariel!
-A filha de vocês?
-A dela!-ele foi enfático ao se excluir.
-Sim, mas a sua assinatura esta la na adoção, então você também
tem a guarda dela!
-Dispenso!
-Sabe senhor Rafael, a sua postura e totalmente equivocada diante de uma criança! Eu
não sei por que aceitou fazer a adoção!
-Eu só aceitei para encobrir o que eu tinha feito, ela ameaçou
fazer um novo exame, e uma fertilização se eu não aceitasse! E diante disso, eu
cedi, mas não adiantou muito, afinal, ela já estava fazendo fertilização em
outro lugar, e não era artificial!
-Já falamos sobre isso! O caso agora e a menina!
-Eu não faço questão!-respirou fundo. Ela pode ser tudo, mas e uma
boa mãe, e eu sei que ela vai cuidar bem de uma criança, mesmo isso não me
importando nem um pouco! Isso e o sonho dela, sonho que ela tem desde adolescente.
-Por que você esta querendo ser algo que não e?-o encarei.
-Não e isso Crystal! Eu assumo, eu te enganei muito, eu te trai moralmente,
mas eu não posso negar que você ama crianças, e elas são tudo para você! Eu
abro mão da minha parte na adoção da criança, não me faz falta nenhuma, e você
sabe disso!
-Bom, sendo assim, estamos terminados, eu vou preencher tudo, e
enviar para o juiz, e como só faltava isso, acho que em dez, ou quinze dias os
papeis do divorcio estarão prontos.
-Eu posso ir embora agora?-olhei no relógio, e era exatamente quinze
horas e dez minutos.
-Pode sim Crystal!
-Graças a Deus! Foi um prazer conhecê-la!
-O prazer foi meu Crystal!
-Eu espero que o casamento da Liz, seja a ultima vez que eu vá te
ver!-ele sorriu, e não disse nada.
-A propósito, as chaves do apartamento, e o carro lhe serão
entregues ainda esta semana, na sua casa Crystal!
-Obrigada!
Ela me entregou uma copia da conciliação feita ali, e eu me despedi
da Ana, saindo porta a fora, não queria mais ficar naquela casa.
Peguei o celular para ligar para o Peter, porem me surpreendi ao
ver o seu carro virar a esquina. Sorri aliviada, e guardei o celular, enquanto
ele parava o carro na minha frente.
-Cheguei na hora?-ele me questionou quando entrei.
-Sim, ainda bem! Ola amores da mãe!-joguei beijos para a Ari, e o
Dy no banco de trás. Obrigada por buscá-la na escola. De novo!
-Imagina!-sorrimos. E ai, como foi?
-Melhor do que eu esperava, e pior do que eu queria!
-Como assim?
Enquanto voltávamos para casa, aonde eu iria apenas me trocar e ir
para o hospital, já que eu tinha um parto marcado para as cinco da tarde,
contei a ele tudo o que tinha acontecido, deixando de fora apenas a parte dos xingamentos,
não queria mais confusão, já basta a tensão que eu sei que será no dia do casamento
da Liz, já que ele me contou que o Matt, o convidou pessoalmente. Será um Deus
nos acuda.
§
Hoje era sexta feira 19, de Junho, de 2015.
Como a Ari esta de férias, a Liz deu a idéia de a Ari ficar com a
Alicia, e dividiríamos a mesma baba, afinal, elas já eram grandinhas, e
adoravam ficar juntas. Seria conveniência, e economia.
Tinha passado rapidinho no mercado para comprar algumas coisas para reabastecer a dispensa,
eu não poderia nem pensar em demorar muito tempo na rua, pois eu recebi uma
ligação da assistente social, marcando uma visita para o período da tarde,
depois das três.
Hoje seria a avaliação da sua adaptação aqui em casa, eu sei que
esta tudo bem, que ela esta bem, que estamos nos dando muito bem, mas sempre
acontece o nervosismo, eu morro de medo dela ser retirada de mim.
Mas, alem disso, eu recebi a ligação a mediadora que o Rafael,
tinha contratado, dizendo que no inicio da tarde um oficial de justiça iria ate
a minha casa para me dar as chaves do carro, e do apartamento em New York. Ele
esta muito bonzinho para o meu gosto, e infelizmente eu sinto que ele esta
aprontando algo, por relutei ate o fim, em receber alguma coisa dele, mas foi em vão.
E foi por isso que eu trabalhei ate a hora do almoço apenas, e passei na casa da Liz para pega-la.
-Vai tomar o seu banho amor, eu vou escolher uma roupinha para
você colocar, hoje terá visitas!
-Quem mamãe?
-Será uma assistente social, e uma psicóloga, elas vão conversar
com você sobre a sua adaptação com a mamãe!
-Adapi... Adapita...
-Adaptação meu amor!-sorri acariciando o seu rosto. E para saber se você se acostumou com a mamãe,
com a casa, se você está se dando bem na escola, se eu sou uma boa mãe para
você, estas coisas!
-Ah, entendi! Mas eu estou, e você e uma mamãe muito “maravilinda”!
-Você e uma filha “maravilinda”!-distribui beijos pelo seu rosto a
fazendo sorrir. Agora vai tomar banho sua espoletinha!-gargalhamos.
-Mamãe, cadê o meu pai, por que ele e o Dy, não vieram ontem? Estou
com saudades deles!
-O papai esta no estúdio amor, acho que mais tarde ele vem! E o Dy
esta com a tia dele, ela pediu que ele dormisse la com ela, acho que os dois
vão vir mais tarde!
-Hum... Eu posso falar com o meu pai?
-Pode, mas primeiro vai tomar o seu banho, e se arrumar.
-Ta bom!
Enquanto ela foi tomar banho, eu escolhi uma roupinha confortável
para ela, afinal, estamos no verão.
Quando ela saiu, enquanto ela se arrumava, eu fiz a ligação para o
Peter, ele disse que estava na casa da irma pegando o Dylan, e já estava vindo
para a minha casa, disse que estava com saudades. Se ele estava, imagina eu.
-Mamãe, “deixa eu” falar com o papai!-sorri, com o seu jeitinho de
falar.
-A Ari quer falar com você amor!
-Saudade da minha princesa!
-Fala com ela, daqui a pouco nos falamos amor, beijo!
-Beijo!-entreguei a ela o meu celular, que estava com um sorriso
de orelha a orelha.
-Alo, papai?
-(...)
-To com saudade, quando você vem?
Ouvi a campainha tocar e senti o meu peito gelar, provavelmente
era a assistente social, afinal, o oficial de justiça já tinha vindo mais cedo
para me entregar as chaves.
Segui ate a porta, e me deparei com duas jovens senhoras muito bem
vestidas conversando entre si, abri a porta, e segui calmamente ate o portão
para abrir para elas.
-Boa tarde!
-Boa tarde, você e a Crystal Fernandes?
-Sim!-sorri quando ouvi o meu nome de solteira novamente.
-Eu sou Helena Jones, e esta e Elisabeth Fierce, eu sou psicóloga,
e ela e assistente social! A senhora deve ter recebido uma ligação da
assistência social, não e?
-Sim! Por favor, entrem!-dei espaço a elas para entrarem.
Pronto, agora era a hora da verdade, seja o que Deus quiser, mas
eu sei que ele esta comigo, e não vai deixar que retirem a minha menininha de
mim. Assim eu espero.
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