Parte Peter
Eu passei a manha inteira no estúdio, e deixei o Dylan, com a Jaime, assim como antes da Cris estar com um barrigão enorme, afinal, ela tinha voltado a trabalhar, e não teria mais tempo para ficar com os dois, assim como nas suas ferias.
No inicio da tarde, eu senti uma dor de cabeça enjoada, que não estava deixando com que eu me concentrasse em nada, por isso eu resolvi ir embora mais cedo, e ir direto para a casa da Cris. Logicamente depois de pegar os nossos filhos, o Dy com a minha irma, e a Ari na escolinha.
Parei na porta da escola faltando exatamente cinco minutos para a saída dos alunos. Fiquei esperando dentro do carro enquanto "conversava" com o Dy, e a sua inseparável chupeta.
-"Abuuu"-ele emitiu um som, estranho com a ajuda chupeta, e eu apenas sorri.
-E mesmo filho?-entrei na conversa, e ele soltou um gritinho estridente batendo as mãozinhas na cadeirinha, e logo se distraiu com um brinquedinho qualquer. Já me esqueceu, não quer conversa!-sorri o olhando pelo retrovisor.
Olhei para a porta da escola, e vi as crianças da sala da Ari saindo, incluindo a Alicia, que estava indo com o seu pai. Retirei o Dy da cadeirinha, e sai do carro indo em direção ao portão.
-Ola Bruno!-ele me cumprimentou.
-Como vai Mathew?
-Bem, você? Como esta a Cris, e o bebe?
-Estamos todos bem, graças a Deus!
-Que bom!
-Como vai pequena?-acariciei os cabelinhos da sua filha.
-Bem tio!
-Escuta, eu queria te convidar para o meu casamento com a Liz, no mês que vem, eu acho que você já deve saber, mas queríamos muito que você fosse!
-Sei sim, obrigado, mas...
-Você sabe que somos amigos do Rafael, e inclusive ele é meu melhor amigo, e padrinho de casamento...
-Ele e o padrinho?
-Sim!
-Desta eu não sabeia! Mas esta tudo bem, eu vou sim, não tem problema nenhum!
-Que ótimo!-sorriu. Então ate breve!
-Ate!
-Mande um beijo para a Cris!
-Claro, mande um beijo meu para a Liz!
Olhei para o portão, e vi a minha pequena brincando com um coleguinha.
Pera ai, aquele e um menino perto da minha filha? Ainda não menino, passa fora! Me aproximei, e chamei a inspetora que liberava os alunos, e logo ela chamou a minha filha, que interrompeu a sua brincadeira imediatamente, mas antes de vir ate mim, ela olhou para o menino que acenou para ela lhe oferecendo um enorme sorriso, ela acenou de volta, e só ai veio ao meu encontro mantendo o seu belo sorriso nos lábios.
-Espero que este sorriso seja para mim, e não para o projeto de dentista ali atras!
-O que?-ela me olhou intrigada.
-Nada filha!-sorri, tadinha, ela não entende nada disso ainda. O papai estava com saudades!-me curvei para beija-la.
-Eu também papai!-retribuiu o meu beijo. Oi Dylan!-ela mexeu na barriga dele, que sorriu soltando um gritinho. Cade a mamãe?
-Eu não sei, mas vamos ligar para ela no carro, tudo bem?
-Sim! Tchau tia, ate amanha!-ela acenou para a inspetora, que acenou de volta.
Segurei em sua mão, e seguimos para o carro. Acomodei os dois em suas respectivas cadeirinhas, e antes de sair com o carro, liguei para a Cris, ela disse que realmente estava atrasada, e agradeceu dizendo que iria sair do consultório, e em meia hora estaria em casa.
Antes de ir para casa, passei em uma padaria e comprei algumas coisas para o nosso lanche da tarde, a Ari, se prontificou a me ajudar, e combinamos que iriamos fazer uma mesa bem arrumada para a mamãe quando chegasse.
Chegamos em casa, e depois de arrumarmos a mesa para o lanche, eu coloquei a Ari para tomar banho, já que sabia fazer isso completamente sozinha. Coloquei o Dylan na sala em frente a TV, colocando alguns brinquedos em volta, e deixando em um desenho qualquer. Bom, qualquer não, era aquela esponja amarela com a risada estranha. Deixei ele quietinho completamente distraído, e fui tomar uma ducha rápida
Fui para o banheiro do quarto da Cris, retirei a roupa e entrei no box para tomar a minha ducha o mais breve possível, não queria deixa-los sozinhos por muito tempo.
Estava no final do banho, quando ouvi um som de alguém no quarto, e em seguida a porta do banheiro que estava encostada se abrindo, e o Dylan entrando no banheiro engatinhando.
-Olha só quem esta engatinhando? O que você esta fazendo aqui rapaz?-sorri pegando a toalha, e me enrolando na mesma, a sorte era que eu já tinha terminado o banho. Como você me achou aqui filhão?-sorri o pegando no colo.
-"Buuu"-fez bolinha de saliva com a boca.
-"Buuu" pra você também! -sorri. Não conseguiu esperar o papai terminar o banho?-sorri. A sua mãe vai ficar toda boba quando ver você engatinhando!-beijei o seu rosto, e ele sorriu querendo colocar as mãos na boca. Não coloca a mão na boca, estava no chão, não pode!
Segui para o quarto com ele, precisava colocar uma roupa, afinal, a Ari, estava em casa.
O coloquei no chão, e fui ate o closet pegar uma muda de roupa, uma de algumas que eu mantinha aqui. Coloquei uma bermuda, e quando olhei para o lado, e para baixo, dei de cara com ele sentado, mexendo nos sapatos da Cris. Disse que não poderia, e o peguei no colo, o retirando do closet, mas logo o deixando no chão novamente. Coloquei a minha camisa, e ouvi a voz da Cris na porta da frente.
-Povo desta casa?
-MAMÃE!
Vi a Ari saindo do quarto dela indo para a sala recepcionar a mãe. Sai do quarto, deixando a porta aberta, e o Dy sentado no meio do quarto, ou melhor, já engatinhando atras de mim.
-Que bom que chegou amor!-entrei na sala, e ela estava sentada no sofá de costas para o corredor de onde eu vim. Estava com saudades!-me curvei lhe dando um selinho!
-Eu também amor!-olhou para os lados. Ue, cade?
-O Dy?
-Claro!-me encarou.
-Esta vindo ai!-sorri.
-Como assim vindo Peter...
Olhamos para o lado, e ele estava vindo pelo corredor engatinhando, ela se levantou, e ficou na porta do corredor com a as mãos na boca, e foi impossível não notar as lagrimas caindo dos seus olhos.
-Amor meu, você esta virando um rapazinho!-se curvou para pega-lo quando ele terminou de engatinhar pelo corredor. Lindo de mamãe...-ela me olhou e eu sorri . Amores da mamãe!-ela sorriu sentando no sofá ao lado da Ari.
-Acho que precisamos de um andador!fiz uma observação.
-Acho que não, devemos deixa-lo se desenvolver no tempo dele, sera melhor assim!
-Se você acha!
-Acho! Estou tão feliz! Quando ele começou a engatinhar?
-Eu também me surpreendi, foi a alguns minutos, eu estava no banho, e quando vi, ele estava entrando no banheiro engatinhando!
-Meu amor, daqui a pouco esta andando tudo por ai!-beijou o seu rostinho. Estou com fome, vou fazer um lanche para comermos!
-Não se preocupe com isso, na volta para casa passamos em uma padaria, e compramos algumas coisas para o lanche!
-Olha, que pessoas mais autossuficientes que eu tenho em casa!
-Somos os melhores amor!-sorrimos.
-Eu sei que sim! Então eu vou tomar um banho para lancharmos!
Ela foi para o quarto, depois de colocar o Dy, sentado no chão onde estavam os seus brinquedos, porem ele foi atras dela, e eu a avisei para o caso dela não vê-lo, e fechar a porta na cara dele.
§
Estávamos terminando de lanchar, ela estava dando as ultimas colheradas de banana amassada para o Dylan, quando do nada, ela me olhou e respirou fundo, a encarei e arqueei a sobrancelha, ela queria me falar algo.
-O que houve?
-Eu preciso te falar uma coisa!
-Fala...
-Mamãe, eu já terminei de lanchar, posso brincar?
-Pode meu bem!-sorriu.
-Fala Cris, o que aconteceu?-a encarei depois que a nossa filha saiu da mesa.
-Eu recebi uma ligação mais cedo, era uma mulher chamada Rachel McAdans. Ela disse que era conciliadora financeira, e era contratada pelo Rafael, para fazer uma conciliação, uma repartição dos bens que estão no nosso nome.
-Mas você disse que não queria nada dele!
-E não quero! Mas ela disse que assim seria uma boa forma de agilizar ainda mais o divorcio, ao invés de deixar rolar, e ir parar no tribunal.
-Entendo! E quando sera?
-Amanha no inicio da tarde, por volta de uma hora!
-Já?
-Sim! Isso e bom, não e? Afinal o divorcio pode vir mais rápido!
-Tomara!
-Ela disse que ele não pretende fazer nada em relação a Ari, ele me acha uma boa mãe, e reconhece que errou comigo!
-Assim fácil? Ele simplesmente não vai fazer nada?
-Foi o que ela disse!
-E você acreditou?
-Não deveria?
-Não sei! E bom manter um pé atras!
-Voçe acha?
-E claro meu amor! Não seja ingenua, você acha mesmo que ele vai sair de um casamento, sendo corno, e não vai fazer nada?
-Não sou ingenua!-me encarou! Talvez um pouco!-se rendeu. Mas o que você acha que ele pode fazer?
-Eu não sei, espero que nada mesmo, mas vamos ficar alertas, tudo bem?
-Tudo!
-"BUUU, AAAHH"-ele bateu as mãos na cadeirinha, e em seguida pegou um pouco da banana com a mão.
-Não meu amor, não pode! Deixa que a mamãe te da!
Ela voltou a dar atenção a ele, e eu fiquei com aquele bendito encontro entre eles no dia seguinte na cabeça. Merda, tomara que aquele desgraçado não tente nada, se não eu não respondo por mim.
Parte Cris.
O nosso inicio de madrugada estava meio conturbado, já que o Dylan teve febre novamente, estava bastante enjoadinho, e dando uma avaliada melhor nele -mesmo não sendo pediatra, eu tinha certa noção com crianças-, eu acabei descobrindo o motivo dele estar tão enjoado. O seu primeiro dentinho estava começando a sair. Tadinho, isso deveria ser terrível!
Me sentei na cama com ele oferecendo um brinquedinho de borracha para que ele mordesse, enquanto acordava o Peter, e pedia que ele fosse ate a farmácia comprar uma pomada anestésica própria para o inicio da dentição do bebe. Enquanto ele foi na rua eu fui para a cozinha fazer um chazinho de camomila para ele tomar.
Me sentei na sala com o Dy no colo, e a choquinha cheia de chá para que ele tomasse, já que estava bastante agitado, devido ao desconforto. Liguei a TV em um desenho, por sorte estava passando Bob esponja, e ele ficou quietinho assistindo enquanto tomava o chá, na realidade ate eu me distrai com o desenho, era legal, e a risadinha dele era muito engraçadinha.
Ele estava terminando de tomar o chá, intercalando entre tomar, e morder o bico da choquinha, quando o Peter chegou com a pomada. Ele sorriu ao mesmo tempo que implicou comigo por estar rindo do desenho, a culpa não era minha se o desenho era engraçadinho.
-Ate você amor?-perguntou com ar de riso.
-O que?-o encarei ainda rindo do desenho.
-Já não basta o Dy gostar desta esponja irritante, agora você?-sorriu.
-A para Peter, e legal!
-Não! Mas fazer o que, são três contra um!
-Não implica! Achou a pomada?
-Achei, tomara que resolva!-me entregou a sacola.
-Vai sim! A Liz sempre fala dela!
Voltamos para o quarto depois de desligar tudo. Fiz mais uma vez a higienização da sua gengiva ainda com gaze, passei a pomada que obviamente eu experimentei antes, se fosse ruim, certamente não daria para o meu filho, mas ela tinha um gostinho agradável ate, e ele acabou não reclamando. O que eu sei, e que mais ou menos dez minutos depois, ele já estava dormindo como um anjo, e nós? Bom, nos acomodamos melhor na cama para enfim tentar dormir, afinal já era quase uma da manha.
§
-Me liga quando estiver para terminar, eu vou te buscar!
-Eu pego um taxi amor!
-Não, eu vou te buscar!-afirmou.
-Merda, eu deveria ter mandado o meu carrinho para a revisão antes!-lamentei ao me lembrar de que ele me deixou na mão esta manha, não querendo ligar.
-Aquele carro já esta pedindo socorro amor!
-Não fala assim do meu carro Peter! Ele esta ótimo!
-A Claro, ele já tem quantos anos mesmo, 10?
-Não!-sorrimos no meio da ligação. Ele não tem nem 7!
-Esta quase la amor! Esta na hora de trocar a carroça por um modelo mais novo!
-Olha quem fala, você tem um Cadillac na garagem! Aquele carro e mais velho que o meu pai!
-Não fala assim do guerreiro, ele esta em ótimo estado!-sorriu.
-O meu também!
-Tudo bem, não vamos mais falar sobre isso!-desistiu de implicar. Me liga quando sair de la, não esquece!
-Pode deixar! Agora me deixa trabalhar, eu ainda tenho uma consulta antes de sair! A proposito, tenho uma cesárea marcada para hoje as cinco da tarde, vai ter que me levar direto para o hospital!
-Tudo bem! Se bem que eu acho que já esta na hora de você parar um pouco, a sua barriga já esta bem grandinha!
-Eu só vou parar quando eu achar que não consigo mais amor, enquanto eu conseguir segurar um bisturi, e a minha barriga não me deixar a um metro da paciente, eu vou trabalhar!
-Teimosa! -resmungou baixinho!
-O que?
-Oi?
-O que você disse Peter?
-O que eu disse? Ah, foi graciosa, você e muito graciosa!
-Graciosa? Você e muito sínico!-gargalhou.
-Não esquece de me ligar!
-Já sei!
§
Era exatamente meio dia e cinquenta e cinco da tarde, quando eu sai do taxi em frente a casa do Rafael. Eu estava tão nervosa em estar ali novamente depois de quase três meses da nossa separação, que eu estava me tremendo toda, estava me sentindo ansiosa, com receio, e louca para terminar isso logo, para que eu pudesse voltar para casa, para a minha casa, nos braços do Peter, e na companhia dos meus filhos.
Aquela casa me trazia lembranças, muitas lembranças, tanto boas, como ruins, mas confesso que depois das condições nas quais eu sai daqui, somente as ruins passam pela minha cabeça agora.
Respirei fundo olhando para o portão, as grades altas que me encarceravam sem nem mesmo eu saber, os muros que me seguravam em sua redoma de forma rude, sendo mascarado pelas belas flores ao seu redor, era exatamente com o Rafael, uma pessoa amarga sendo mascaradas pelas suas boas ações, para que eu não suspeitasse de nada, o seu carinho comigo, a forma que me tratava com presentes, com amor, atenção, tudo isso mascarava o que ele realmente era. Um mentiroso.
Ficar do lado de fora certamente não resolveria os meus problemas, por isso respirei fundo, e tomei coragem para adentrar a casa.
Rick, o segurando que trabalha na casa desde que nos mudamos, abriu o portão para mim, agradeci gentilmente, e segui ate a porta principal, onde a Ana abriu a porta com o seu enorme sorriso habitual.
-Dona Crystal!
-Ola Ana! Tudo bem?
-Esta sim! Parabéns pela gestação!
-Obrigada! Como esta?
-Estou bem, e a senhora?
-Acredite, estou bem melhor do que antes!-ela apenas sorriu. Onde esta o seu patrão, quero fazer o que tem que ser feito, e ir embora logo!
-Estou aqui!-ouvi a sua voz vinda da sala, e senti uma ansiedade estranha tomar o meu corpo, eu realmente não estava preparada para vê-lo ainda, e nem sei se um dia estaria, mas enfim, já estou aqui, e infelizmente não tenho como voltar atrás.
-Já podemos começar logo, não posso demorar, tenho que pegar a minha filha na escola dentro de duas horas!-adentrei a sala.
-Você quem marcou a hora, se por acaso se atrasar, a culpa não e minha!-ele me encarou e sorriu, ele tinha rasão. Não podemos, a conciliadora ainda não chegou, teve um contratempo, e chegara dez minutos atrasada.
-Vou ter que ficar dez minutos a mais olhando para você?
-A propósito Crystal, boa tarde para você também, parece que a sua educação ficou no portão da rua!-eu apenas o encarei sem vontade nenhuma, e maneei com a cabeça. Eu digo o mesmo em relação a ter que te olhar por mais dez minutos, e pior ainda, não só para você, mas para a sua enorme...-gesticulou para a minha barriga. Enfim, senta, quer alguma coisa?
-Acabar logo para ir embora!-me sentei.
-Eu também!-ele sentou do outro lado da sala, olhando diretamente para mim.
-Por que isso, eu já não tinha dito que não queria nada!-fui direto ao ponto.
-Disse, mas não quero correr o risco de você mudar de ideia! Sabe como é, acho que você já esta sentindo o efeito de estar pobre, afinal, eu notei que ate sem carro você esta!-miserável.
-O meu carro, esta na... Quer saber, eu não te devo mais satisfações...
-É ai que você se engana minha cara, ainda somos casados no papel, e legalmente, você ainda e minha mulher, e me deve satisfações! Eu que não as cobro, não faço questão de tal coisa!
-Não moramos mais juntos, eu não te devo nada!-o encarei, e ele esboçou um sorriso. E outra, se colocar na ponta do lápis, e você que me deve algo!
-Eu?-sorriu cinicamente. O que eu te devo Crystal?
-Desculpas no minimo!
-Desculpas?-esboçou um sorriso.
-E claro, eu passei os últimos anos da minha vida sendo enganada por você!
-E você não me enganou, não me traiu? Você não se comportou como uma puta quando se deitou com aquele...
-Puta e os cambal! Eu fui uma idiota durante o nosso casamento inteiro isso sim! Eu fui enganada, e ate agora eu ainda não sei o porque disso tudo, de toda aquela mentira! Por que?-o encarei.
Ele sustentou o meu olhar por alguns segundos, e em seguida se levantou passando as mãos na cabeça exasperado, ele olhou para mim novamente com a expressão completamente seria, acho que naquele momento ele estava querendo me matar.
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